TenisBrasil – Conhea brasileiro que ajudou no ttulo de Medvedev

Felipe Priante

A incrível campanha de Daniil Medvedev no US Open deste ano, na qual o russo cedeu apenas um set e superou Novak Djokovic na final para conquistar seu primeiro Grand Slam, contou com a ajuda de um brasileiro. Nascido em São Carlos, no interior paulista, Rodrigo Mariz de Oliveira foi parceiro de treinos do número 2 do mundo nas duas semanas de competição.

O paulista de 26 anos, que desde pequeno treinou com Elson Longo e depois foi para os Estados Unidos para fazer faculdade e jogar os torneios universitários, por lá ficou e em três das últimas quatro edições do US Open conseguiu conciliar o trabalho no time de produtos da Wilson com a oportunidade de bater bola com as principais estrelas do circuito e acompanhar de perto os bastidores do torneio.

Com o privilégio de seguir bem perto detalhes da preparação de Medvedev durante o evento, Rodrigou contou em entrevista a Tenisbrasil um pouco do que viu do russo em Nova York. Ele também explicou seu dia a dia no evento, com várias sessões de treinos ao lado das maiores estrelas do tênis mundial. “Não consegui jogar um Grand Slam, mas conheci de perto jogadores que são meus ídolos dentro e fora das quadras”.

Leia a entrevista completa:

Você foi parceiro de treinos no US Open pela terceira vez. Como surgiu essa oportunidade?

Depois de me formar em 2017 pela Illinois State Unviersity, onde joguei tênis universitário, estava procurando conectar o que eu tinha estudado com a minha paixão pelo tênis. Como competir estava muito custoso e tive algumas lesões, tentei me aproximar dos maiores eventos e atletas para continuar meu sonho. Participei de um ‘tryouts’ (peneira) para ser ‘hitting partner’ (parceiro de treino) do Miami Open em 2018 e fui escolhido. Depois disso dei sequência e fiz parte do Miami, Connecticut Open e Indian Wells em 2019 e do US Open em 2018, 2019 e 2021.


Como funciona o dia a dia de um parceiro de treinos? Quanto tempo você tem que ficar à disposição do torneio?

Eu fico à disposição do torneio durante as duas semanas basicamente durante todo o dia. Faço minha função pela Wilson, trabalho na loja deles no US Open, entre as sessões de treino e à noite depois do último treino. Na primeira semana há muitas mudanças devido aos atrasos dos jogos, então é muito dinâmico. Alguns tenistas e treinadores já me conhecem e marcam os treinos sabendo que estou lá, mas a grande maioria das sessões é diretamente feita através da organização do torneio. Basicamente eu chego muito cedo em Flushing Meadows, para aquecer e alongar, porque preciso estar pronto para treinar os caras em um ritmo muito puxado. Tudo termina muito tarde e acabo dormindo menos, mas vale a pena para realizar um sonho

Quantas vezes você bateu bola com Medvedev neste US Open? O que mais te chamou a atenção nesses treinos?

Treinei com ele praticamente dia sim e dia não nestas duas últimas semanas. Os treinos que não fiz foram aqueles que ele estava agendado com outros jogadores, para jogar um set ou aquecer juntos. O que me chamou mais a atenção foi a tranquilidade de não levar a emoção para essas horas importantes. Treinamos antes da semifinal e ele estava super relaxado, parecia que estava andando no parque. Também destacaria sua regularidade, de não falhar em praticamente nenhuma bola no treino, é super sólido. A bola é muito funda e o saque é de outro nível, realmente muito diferente, não só pela potência, mas também em como sempre pega bem na bola.

Você consegue também acompanhar alguns jogos no torneio lá do complexo? Onde viu a final do último domingo?

Sim, eu consegui acompanhar vários jogos, tanto do Medvedev como do Bruno Soares com o Jamie Murray. Adoro acompanhar os brasileiros, também treinei bastante com Bruno e Jamie nestas semanas. Vi alguns jogos da Luísa e fiquei super triste com o que aconteceu com ela, foi de partir o coração. Esse é um dos privilégios que tenho no meu trabalho na Wilson e como parceiro de treinos. Também gosto de acompanhar os juvenis para ver quem está vindo por aí. Infelizmente não consegui ficar para a final, pois tinha que estar de volta em Chicago já na segunda-feira para trabalhar no escritório, mas assisti às quartas e semis no box dos jogadores.

Qual a melhor parte de treinar com os tenistas no US Open? E tem alguma parte ruim?

A melhor parte, sem dúvida, é poder fazer parte desses torneios com um seleto grupo de tenistas. Infelizmente não consegui jogar um Grand Slam, mas consegui participar de vários e pude treinar com jogadores que são meus ídolos dentro e fora das quadras. Tenho a chance de conhecê-los de mais perto, almoçar com eles e até criar uma relação com alguns. É uma coisa que não tem preço, esses grandes campeões são grandes pessoas também. Poder estar tão perto é um grande privilégio.

O lado ruim é que é muito cansativo, tenho que conciliar com o meu trabalho e teve dias que saí do complexo lá pelas 3h ou 4h. Também dormi muito pouco e já de manhã precisava treinar com um grande jogador, isso é bem difícil. A demanda no corpo é alta, mas me preparo o ano todo para fazer isso e vale muito a pena.


Você também treinou com outros jogadores. Como funciona a dinâmica do treino? Há muitas diferenças de um para outro?

A maioria dos homens não tem um parceiro de treinos e algumas das jogadoras têm, então conforme o torneio vai indo muitos deles precisam. Como são poucos que fazem isso, a gente acaba treinando com homem, mulher, duplista e por aí vai. Os maiores nomes com quem treinei neste US Open foram Dimitrov, Monfils, Zverev, Aliassime, Alcaraz, Soares, Jamie Murray, Zvonareva e Barty. É uma lista bem extensa. Cada jogador tem sua maneira de treinar, alguns treinam mais intensos, outros aquecem mais intensos, há quem peça coisas mais específicas, principalmente as mulheres, que costumam pedir uma certa altura de bola. Cada um tem seu jeito de preparação. Por exemplo, Medvedev é um cara muito tranquilo e relaxado, durante os treinos ele era bem mais intenso no aquecimento para sentir bem a bola.

Tem alguma história ou curiosidade para contar sobre essa sua experiência?

Agora eu só consigo lembrar de uma que não foi no US Open e sim em Miami, onde a organização se enrolou com a programação do torneio e acabou enviando dois jogadores para aquecer o Wawrinka na quadra central. Fui eu e um colega meu, mas o Wawrinka só precisava de um, então ficou uma situação meio chata. Ele disse para nós dois decidirmos quem iria fazer o treino e como os dois queriam muito, tiramos no cara ou coroa. Eu venci e fiz um treino bem legal, acabei até treinando com ele outros dias e o conheci melhor.

Você recebe alguma coisa pelo trabalho de parceiro de treino?

Eles cobrem todos meus custos durante o torneio: encordoamento, alimentação e transporte. Minha remuneração vem apenas do trabalho na Wilson, no qual tenho uma agenda bem puxada durante os torneios. Ganhamos também alguns brindes do torneio e ingressos para as quadras secundárias para vermos alguns jogos.

O que dá pra aprender na convivência com os tenistas?

Aprendo muito sobre tênis em si, analisando os jogos junto às equipes e jogadores. Além disso, vejo de perto a preparação dos jogadores tanto como na parte física e prevenção de lesão, como na alimentação, preparação mental, gerenciamento de carreira e organização de equipamentos que é a parte com que trabalho hoje. Basicamente um MBA tenístico para mim. E o mais importante que tiro de lição é a postura humana de alguns times e jogadores, a maneira como se portam durante o torneio. Executam as tarefas de forma extremamente organizada e profissional e ao mesmo tempo são pessoas muito humanas. Levo isso para minha vida e para o meu trabalho. Um deles que me fascina muito e sempre tento aprender muito com ele é o Bruno Soares, que é um grande ídolo para mim como tenista e pessoa.

Um dos melhores sentimentos de ser parceiro de treinos é a sensação que, mesmo não sendo um tenista profissional, a jornada e todo trabalho duro e dedicação de toda minha família valeram a pena. Meu pai foi meu grande incentivador desde de pequeno, me levando para os torneios. Ele nos deixou em abril deste ano, vítima de um ataque cardíaco. Fico feliz que consegui fazer algo grande com o tênis e espero continuar honrando ele.


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